Cardiologia

O exame de poucos minutos que pode evitar mortes súbitas em jovens atletas

Especialista explica como alterações cardíacas silenciosas podem ser detectadas antes de provocar uma tragédia.

Por Prof. Dr. Carlos Alberto Pastore , 02/06/2026

4 min de leitura

O exame de poucos minutos que pode evitar mortes súbitas em jovens atletas

A morte do fisiculturista irlandês Gabriel Ganley, aos 22 anos, voltou a chamar atenção para um tema que a cardiologia conhece há décadas, mas que ainda é frequentemente ignorado fora dos consultórios: aparência física impressionante não significa necessariamente saúde cardiovascular.

As suspeitas de hipoglicemia associada ao uso de insulina e outras substâncias voltadas ao ganho de performance rapidamente dominaram as discussões nas redes sociais e no universo fitness. Mas reduzir casos como esse apenas ao uso de uma substância pode simplificar demais um problema muito mais complexo e perigoso.

Em muitos episódios de morte súbita em jovens atletas ou praticantes de atividade física intensa, existe um coração previamente vulnerável. O gatilho pode variar – desde alterações metabólicas importantes até desidratação, estimulantes, hormônios ou estresse cardiovascular extremo –, mas frequentemente já havia uma condição silenciosa instalada.

Entre elas, uma das mais temidas é a cardiomiopatia hipertrófica, doença caracterizada pelo espessamento anormal do músculo cardíaco. Em muitos casos, ela não provoca sintomas perceptíveis e pode permanecer desconhecida durante anos. O primeiro sinal pode ser justamente uma arritmia grave durante esforço físico intenso.

O problema é que muitos jovens acreditam que, por treinarem regularmente e apresentarem baixa gordura corporal, estão automaticamente protegidos de doenças cardiovasculares. Essa percepção é falsa. O coração pode sofrer alterações elétricas e estruturais importantes mesmo em indivíduos extremamente condicionados fisicamente.

No fisiculturismo moderno, esse cenário ganha ainda mais complexidade. Além dos treinos intensos, muitos atletas utilizam combinações de hormônios, estimulantes, diuréticos, termogênicos e substâncias voltadas ao metabolismo energético sem acompanhamento médico adequado. Algumas dessas substâncias podem alterar pressão arterial, frequência cardíaca, equilíbrio eletrolítico e resposta elétrica do coração.

A insulina, por exemplo, é um hormônio essencial para pacientes diabéticos, mas seu uso inadequado pode provocar hipoglicemia grave. Quando os níveis de glicose caem de forma abrupta, o organismo entra em intenso estado de estresse metabólico, liberando adrenalina e sobrecarregando o sistema cardiovascular. Em pessoas predispostas, isso pode favorecer arritmias potencialmente fatais.

Muitas vezes, porém, o organismo já vinha emitindo sinais silenciosos antes da tragédia acontecer. E é justamente nesse ponto que exames preventivos ganham enorme importância.

Um simples eletrocardiograma pode identificar alterações sugestivas de arritmias, sobrecargas cardíacas e algumas doenças estruturais capazes de aumentar o risco de morte súbita. Dependendo dos achados e do histórico familiar, outros exames complementares podem ser indicados, como ecocardiograma, teste ergométrico, ressonância cardíaca e monitorização elétrica prolongada.

Isso não significa que todo praticante de academia esteja em risco iminente. A atividade física continua sendo uma das maiores aliadas da saúde cardiovascular. O problema surge quando performance extrema, pressão estética e uso indiscriminado de substâncias passam a ocupar o lugar do cuidado médico responsável.

Nos últimos anos, a busca por corpos cada vez mais musculosos e definidos se intensificou nas redes sociais, principalmente entre jovens. Em muitos casos, a estética passou a ser tratada como sinônimo absoluto de saúde, quando na realidade os dois conceitos nem sempre caminham juntos.

A cardiologia moderna tenta justamente combater essa ilusão perigosa. Um corpo aparentemente perfeito pode esconder hipertensão, arritmias, doenças genéticas e alterações estruturais cardíacas relevantes. E, em alguns casos, a prevenção poderia começar com algo simples: ouvir os sinais do corpo e realizar exames periódicos.

A morte súbita em jovens atletas raramente acontece “do nada”. Na maior parte das vezes, o coração já vinha pedindo atenção em silêncio.

Prof. Dr. Carlos Alberto Pastore - CRM 24.264 | SP - RQE 69372

Cardiologia

Doutor em cardiologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)

Livre-docente pela FMUSP desde 2004

Membro da Brazil Health