Cardiologia

Mamografia pode revelar risco de infarto? O sinal que muitas mulheres ignoram

A cardiologista Dra. Salete Aparecida da Ponte Nacif explica como sinais discretos e achados na mamografia podem ajudar a antecipar o risco de infarto e AVC, antes mesmo da dor no peito aparecer.

Por Salete Aparecida da Ponte Nacif , 11/07/2026

4 min de leitura

Mamografia pode revelar risco de infarto? O sinal que muitas mulheres ignoram

As doenças cardiovasculares (DCV) continuam sendo a principal causa de morte em todo o mundo. Entre o público feminino, o cenário é ainda mais preocupante. Isso porque historicamente, o infarto foi rotulado como uma “doença de homem”, gerando um legado de subdiagnóstico, em que muitas mulheres ignoram sinais importantes por acreditarem que o coração só avisará por meio de uma dor lancinante no peito.

No entanto, o músculo cardíaco envia alertas prévios que a ciência agora consegue detectar até mesmo em exames de rotina realizados para outras finalidades, como a mamografia.

Sintomas atípicos

O modelo clássico de infarto – a mão no peito e a dor que se irradia para o braço esquerdo – é o chamado sintoma típico. Contudo, mulheres, idosos e diabéticos manifestam frequentemente sintomas atípicos. Esses sinais premonitórios (pródromos) podem surgir semanas antes de um evento agudo e exigem atenção redobrada:

  • Fadiga extrema: um cansaço desproporcional ao esforço realizado (ex.: subir um lance de escadas comum passa a parecer uma maratona).
  • Desconforto gástrico: mal-estar facilmente confundido com gastrite, refluxo ou má digestão.
  • Dor irradiada: desconforto ou pressão que se manifesta na mandíbula, no pescoço ou nas costas.
  • Falta de ar e palpitações: sentir o coração acelerado em repouso ou apresentar falta de fôlego ao se deitar.

O infarto ou o acidente vascular cerebral (AVC) são apenas a ponta do iceberg de um processo de anos de deposição de gordura, inflamação e calcificação das artérias. Esperar a dor aguda aparecer significa atrasar a prevenção.

Como a Inteligência Artificial pode ajudar na mamografia

Um estudo de 2026 publicado no European Heart Journal, liderado pela Emory University e pela Mayo Clinic, revelou que a Inteligência Artificial (IA) pode transformar a mamografia de rotina em uma ferramenta poderosa de rastreamento cardíaco.

Muitos laudos de mamografia trazem o termo “calcificações vasculares”. Antes vistas como achados benignos e sem relevância para o câncer, essas marcas são depósitos de cálcio na camada média das artérias da mama. A pesquisa confirmou que elas funcionam como um espelho fiel do que está acontecendo nas artérias do coração e do cérebro.

Avaliando mais de 123.762 mulheres ao longo de uma média de 7 anos, com algoritmos de IA (redes neurais), os cientistas constataram:

  • Dose-resposta: quanto maior a área de calcificação detectada, maior o risco de morte e eventos graves.
  • Risco multiplicado: mulheres com calcificação severa (acima de 25 mm²) apresentaram um risco três vezes maior de sofrer infarto, AVC ou insuficiência cardíaca.
  • Independência: o sinal na mamografia previu o risco de forma isolada, independentemente de a paciente ter colesterol alto, diabetes ou hipertensão.
  • Atenção às jovens: o indicador foi altamente significativo mesmo em mulheres com menos de 50 anos.

Essa descoberta viabiliza o rastreamento oportunista: estimar o risco cardiovascular de cerca de 40 milhões de mulheres anualmente durante o rastreio do câncer, sem necessidade de radiação extra ou custos adicionais. A IA não substitui o médico, mas confere uma capacidade ampliada de identificar padrões imperceptíveis ao olho humano.

O volume de calcificação arterial mamária foi classificado em quatro níveis de impacto:

  • Zero (0 mm²): baixo risco basal.
  • Leve (até 10 mm²): aumento de 30% no risco cardiovascular.
  • Moderada (10 a 25 mm²): aumento de 75% a 80% no risco.
  • Severa (acima de 25 mm²): risco aumentado em mais de 200%.

Matematicamente, cada milímetro quadrado adicional de cálcio na mama representa um acréscimo de 2% a 3% no risco de desenvolver problemas cardíacos graves nos anos seguintes.

O próximo passo é seu

A ciência nos mostra que a prevenção deve ser integrada. O cuidado com as mamas e a proteção do coração caminham juntos. Se você tem exames de mamografia recentes, converse com seu médico para avaliar se há descrição de calcificações vasculares e jamais subestime sintomas atípicos.

A Inteligência Artificial está ao nosso lado para identificar o perigo muito antes do primeiro sinal de dor. O diagnóstico precoce continua sendo o principal aliado da sua longevidade.

Dra. Salete Aparecida da Ponte Nacif - CRM 111597-SP

Cardiologista Hcor