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Obesidade - Introdução

Dr. Fábio R. Trujilho, Endocrinologia e Metabologia
Publicado em 08/10/2017 - Atualizado em 16/10/2017


Obesidade: Uma doença que precisa ser vista como doença

Não precisamos de pesquisas para observarmos que a obesidade vem alcançando níveis alarmantes. Basta observarmos em um local público o vai e vem das pessoas para vermos que pessoas acima do peso provavelmente aparecerão em números elevados, talvez até em maior número do que pessoas com peso normal. Perceberemos também que o número de crianças e adolescentes gordinhos estão elevados.

Esta simples observação é confirmada por pesquisas que mostram que a obesidade vem aumentando no mundo todo, e que no Brasil mais de 20% da população adulta está obesa e pior, mais da metade da nossa população adulta está acima do peso.

Dados do Ministério da Saúde, o Vigitel 2016, mostram que a obesidade cresceu 60% em 10 anos entre os adultos brasileiros, atingindo de forma semelhante ambos os sexos, mas que seu índice é menor entre os que tem maior escolaridade, dado que sugere a educação como ferramenta no seu combate.

O conhecimento atual mostra que as causas para o crescimento da obesidade são multifatoriais, tendo um componente genético importante, mas também o ambiente exercendo um papel facilitador para a instalação dessa doença.

A obesidade vem acompanhada do aumento do número de casos de hipertensão arterial e diabetes mellitus tipo 2, que além de aumentar o risco de mortalidade por infarto agudo do miocárdio e derrame cerebral, trazem riscos de cegueira, amputação dos pés e maior risco de falência renal levando a hemodiálise. Também está associada ao aparecimento de certos tipos de canceres, colesterol alto, pedra na vesícula, inflamação nos ossos, gordura no fígado, apnéia do sono entre outras comorbidades.

Além disto, questões psicológicas importantes como diminuição do auto estima, tanto pelo componente estético propriamente dito, quanto pelas limitações impostas pelos casos mais graves, que os impedem de realizar tarefas corriqueiras como andar de ônibus, amarrar o sapato, realizar a higiene pessoal, sem falar do preconceito que ainda se tem com estes indivíduos.

Um bom número de obesos graves estão fora do mercado de trabalho, com uma vida social prejudicada, e muito provavelmente você não o verá durante sua observação em um lugar público, mas eles são muitos e estão sofrendo.

Não há dúvidas que estamos diante de uma doença que mata, limita e que principalmente faz sofrer.

Estamos fazendo pouco para enfrentar essa epidemia, e o Dia Nacional de Prevenção à Obesidade nos faz refletir sobre o que podemos fazer para a mudar este cenário.

A prevenção parece ser um dos principais pilares deste enfrentamento e ela começa pela educação. As pesquisas já deixam claro que maiores níveis de escolaridade estão relacionados a menores índices de obesidade. Alguns podem acreditar que isto pode estar relacionado a um maior poder aquisitivo como um facilitador para os alimentos mais saudáveis, programas de atividade física e acesso a tratamento. Concordo que isto seja um fator influenciador, mas ressalto que pode se ter uma vida saudável com pouco dinheiro, mas dificilmente sem conhecimento, planejamento e disciplina.

Empoderar as famílias e as escolas com informações e estratégias para esse enfrentamento são fundamentais. Uma das ferramentas importantes, que várias associações estão lutando para agilizar a implementação, entre elas a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, é a rotulagem frontal dos alimentos, que trará informações claras sobre valor nutricional de cada alimento e contribuirá para que as pessoas possam optar na hora da compra por alimentos mais saudáveis.

Cuidados com a publicidade de alimentos para crianças, opções de cardápios saudáveis nas escolas e espaços públicos seguros para a prática de atividades físicas também são ferramentas importantes.

Prevenir é fundamental, mas precisamos oferecer ao obeso o acesso a uma linha de atendimento no SUS, como já existe para algumas doenças como hipertensão e diabetes. Sabemos que uma perda de peso entre 5 a 10% já é suficiente para diminuir riscos de complicações com melhora da qualidade de vida, mas para isso precisamos dar acesso ao obeso a uma equipe multidisciplinar que possa orientá-lo, acompanhá-lo e dar o suporte necessário para que seu tratamento seja efetivo, seja ele clínico ou cirúrgico.

Culturalmente muitos de nós fomos criados a ser exigentes com nosso desempenho frente ao trabalho, família e a sociedade como um todo, mas permissivos com as nossas “fugidas” com a comida, bebida e prática de atividades físicas, justificando muitas vezes diante de uma rotina intensa como algo do tipo “eu mereço”. Hábitos de vida saudáveis têm que ser tratados com a mesma seriedade que damos a nossa educação e trabalho.

Precisamos vencer a obesidade com estratégia, disciplina, enfrentamento e cobrança das autoridades por uma política eficaz de prevenção e assistência ao paciente obeso.

A evolução na assistência ao paciente com obesidade, além do impacto individual com melhora da qualidade de vida e redução das doenças associadas à obesidade, reduzirá os gastos com tais doenças no sistema de saúde.

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